Virada em Shanghai: o chute que mudou tudo
Em plena Mercedes-Benz Arena, com a torcida inteira empurrando o ídolo local, Johnny Walker virou uma luta que parecia desandar e nocauteou Zhang Mingyang no segundo round, em 2:37. O brasileiro vinha de duas derrotas por nocaute e carregava nas costas a conversa de um “azar” recente dos atletas do país no octógono. Não só sobreviveu a um início tenso: desmontou o rival com uma arma simples e precisa — o chute na panturrilha.
O primeiro round foi todo de Zhang. O chinês entrou para pressionar, encurtou a distância e acertou mãos pesadas que colocaram Walker em modo de contenção. O brasileiro sentiu o peso dos golpes, recuou para a grade e teve de administrar o relógio. Nesses minutos, a diferença parecia clara: Zhang estava à vontade, variando direções e ritmos, enquanto Walker buscava encaixar um contragolpe que não vinha.
No intervalo, veio a virada mental e tática. Walker voltou mais leve, com passos laterais e, principalmente, mirando a perna da frente de Zhang. O chute na panturrilha, que não chama atenção como um cruzado de direita, muda a luta por baixo: tira base, desacelera entradas, corrói a confiança. Quem já tomou sabe — a perna vai embora sem aviso.
Bastaram duas conexões limpas para tudo virar. O primeiro chute fez Zhang travar a passada. O segundo colapsou a base. Na fração seguinte, Walker avançou para o ground and pound, conectou marteladas curtas e precisas, e obrigou o árbitro a interromper. Deu TKO, silêncio na arena e um alívio audível do brasileiro, que havia passado semanas ouvindo que não aguentava mais pancada.
Para Walker, o resultado vale mais do que a linha no cartel. Ele encerra a sequência negativa, resgata confiança e, principalmente, prova que ainda lê lutas em alto nível. O ajuste não foi sorte: foi entendimento do que a luta lhe dava. Quando a mão não entra, corra por baixo. Quando a velocidade do rival te sufoca, corte a perna que sustenta essa velocidade. Foi isso que ele fez.
Para Zhang, é um choque de realidade em casa. A primeira derrota desde 2019 chega no maior palco possível, com toda a pressão de uma volta do UFC ao país após seis anos. Ele mostrou potência e timing no início, mas pagou caro por uma defesa rasa à perna da frente e por ficar plantado demais ao trocar golpes. O talento segue ali; a lição, também: alto nível pune detalhes.
O momento foi simbólico por outro motivo: encerra a narrativa do “azar brasileiro” recente. Lutas viram em segundos, e Walker lembrou disso do jeito mais cruel para quem estava do outro lado. Em uma noite de barulho, ele venceu no silêncio: primeiro, ao minar a base; depois, ao terminar o serviço no chão.
O peso do evento e o que vem aí no meio-pesado
O retorno do UFC Shanghai à China depois de seis anos era mais do que um card: era um sinal de aposta no mercado asiático. A Mercedes-Benz Arena lotada, o clima de jogo grande, a vibração a cada avanço de Zhang — tudo isso deu à virada de Walker um ar ainda maior. Calar um ginásio inteiro não é comum. Fazer isso depois de um primeiro round ruim, menos ainda.
Em termos de divisão, a vitória recoloca Walker no radar das lutas grandes do meio-pesado. Ele volta a flertar com a elite do top 10, agora com uma arma bem ensaiada para rivais que avançam em linha. Casamentos possíveis? Nomes que testam base e volume, como atletas com jogo de pressão e chutes baixos, fazem sentido. O caminho natural é um top 10 ou top 5 em boa fase para medir a consistência desse ajuste técnico.
Do lado de Zhang, a reconstrução passa por recuperar mobilidade e timing defensivo contra chutes. Ele tem poder de nocaute e leitura de distância, mas vai precisar variar entradas, checar melhor os chutes e esconder a própria base com passos diagonais. Voltará a vencer? O histórico longo de triunfos sugere que sim — a questão é como ele processa a derrota e reaparece no próximo camp.
O card co-principal também entregou: o peso-pesado Sergei Pavlovich venceu Waldo Cortes-Acosta por decisão, um detalhe que reforça o nível de tensão e estudo na noite. Pavlovich, conhecido por encerrar lutas cedo, precisou trabalhar mais rounds, e isso ajudou a sublinhar o tom técnico do evento em Shanghai.
Alguns momentos-chave da virada de Walker ajudam a contar a história da luta:
- Mudança de postura no 2º round, com passos laterais e leitura de distância.
- Primeiro chute na panturrilha desacelera Zhang e muda o ritmo das entradas.
- Segundo chute colapsa a base; avanço rápido para o ground and pound.
- Interrupção do árbitro aos 2:37 do 2º round, sem espaço para recuperação.
Teve esportividade, também. Depois do TKO, Walker falou algumas palavras em chinês ao público, reconheceu o rival e mostrou respeito em território hostil. Essa postura conta pontos com a torcida e com a organização. Venceu a luta e ganhou a noite.
Se a pergunta era se Johnny Walker ainda tinha respostas depois de dois nocautes seguidos, a resposta veio com chute seco na panturrilha e convicção. Shanghai viu. O meio-pesado sentiu. E a categoria tomou nota.